Portugaltunas - Tunas de Portugal

“O Boom” dos anos 80 e 90 do Século XX
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“O Boom” dos anos 80 e 90 do Século XX

Existe Hoje Um Pequeno Histórico Que Permite A Análise Deste Período Referente A Meados Dos Anos 80 E 90 Do Século XX E Que Ficou Conhecido Como “boom” Tunante Ou Explosão Tunante

Excepcionalmente, publica-se na integra o texto relativo à palestra do "Boom" Tunante dos anos 80 e 90 do Século XX, que por impossibilidades várias não foi apresentado na edição deste ano do ENT em Castelo Branco, facto ao qual o CoSaGaPe é alheio.

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O "Boom" dos anos 80 e 90 do Século XX


Historiar os últimos 20/25 anos, grosso modo, da vivência tunante universitária portuguesa é, hoje, um interessante desafio, essencialmente por duas ordens de razão:

•A 1ª prende-se com o facto de já existir um pequeno histórico que permite a análise deste período referente a meados dos anos 80 e 90 do Século XX e que ficou conhecido como “boom” tunante ou explosão tunante, como preferirem;

•A 2ª porque alguns dos presentes na mesa deste painel – onde naturalmente me incluo – viveram o mesmo na 1ª pessoa, o que faz com que as nossas Capas de Tuno tenham, mais coisa menos coisa, a mesma idade de muitos dos que hoje entram para as nossas Tunas…adiante…


Como intróito:

A Tuna em Portugal não teve, até meados dos anos 80, inícios dos de 90 do Século XX - que corresponde ao famoso boom tunante português, um paralelismo quer com o fenómeno tunante, essencialmente em Espanha, quer também como caso de estudo tunante da América Central e do Sul. São evoluções históricas todas elas distintas entre si e onde, curiosamente, ou talvez não (por força da proximidade cultural e histórica), algumas semelhanças se cruzam entre o caso espanhol/hispano-americano. Aliás, é notório historicamente constatar-se períodos de maior e/ou menor aproximação entre eles ao longo desse período tão "esquecido" do estudo tunante.

O fenómeno tunante português teve traços muito próprios na sua evolução ao longo dos últimos 100 anos, e até pelo menos ao “boom” tunante acima referido; e mesmo durante, e após, a vigência do mesmo boom são apenas alguns os paralelismos encontrados entre o nosso caso e o espanhol, por exemplo.

O fenómeno perfeitamente delimitado das Estudiantinas espanholas de finais do Século XIX, inícios do Século XX assumiu contornos para além do mundo estritamente universitário (caso prático flagrante da Estudiantina Figaro de 1878, p.ex., e da sua importância histórica como disseminadora deste conceito, na época, por vários pontos do mundo) extravasando o contexto universitário) onde o conceito de “correr a Tuna” se desvanece, fruto de reformas sociais e políticas ocorridas em Espanha, para lá das evoluções tecnológicas que deixaram de permitir que se percorresse a pé trajectos entre localidades universitárias, em troca do uso do então emergente caminho-de-ferro e do barco a vapor.

No caso nacional, o surgimento das Estudantinas teve também contornos localizados muito próprios, e que em muitos casos extravasavam também elas as fronteiras estritamente estudantis, com a constância de Estudantinas formadas por empregados de comércio local, terminando nas de liceu, por exemplo, passando pelas de carácter meramente popular – e daí a diferença conceptual entre Estudantina e Tuna, num processo, como já aqui dissemos, que se diferencia do da vizinha Espanha (onde o termo Estudantina, por ter sido “corrompido” foi abandonado em detrimento do termo Tuna que se fixará como exclusivo dos grupos estudantis), já que, em Portugal, Estudantina e Tuna acabam por ser usados tanto por estudantes como populares, daí que a única forma, não maculada, de diferenciação foi o uso da denominação “Académica”.

Ou seja, existe em Portugal um hiato temporal de quase vazio no que se refere à Estudantina/Tuna composta unicamente por universitários, com excepções devidamente registadas historicamente (e como anteriormente explicado). Tal deriva, igualmente, de uma diferença de vulto entre o caso espanhol e o português ao longo dos primeiros 70 anos do Século XX (embora até à década de 20/30 do séc. XX, poucas diferenças existiriam): Espanha teve uma Guerra Civil (onde durante a mesma não existiu actividade Tunante) e um regime posterior que apoiou as Tunas – a custo político e social como se constata no período Franquista e no advento da influência do Sindicato Espanhol Universitário na regulação da actividade Tunante; Portugal teve um período de Ditadura onde Salazar não permitiu o alimentar da associação entre os estudantes universitários (embora existissem Tunas, sendo que algumas nunca pararam a sua actividade: TUP, TAUC, Évora, etc, além de que no foro popular o seu nº continua a crescer), em contraponto ao caso Espanhol, com Franco, que o incentivou e usou como forma de propagandear a cultura espanhola além fronteiras.

Chegados à Democracia em ambos os países – anos 70 – é natural que a "ponte" entre o final do Século XIX inicio do de XX e a Democracia dos anos 70 exista no caso espanhol e no caso português seja uma imensa "branca" – salvo pontuais casos, sobrando dedos de uma mão para a sua contabilidade.
Ou seja, há, no caso espanhol, uma continuidade histórica e evolução. No caso português, não se regista essa mesma evolução, já que é resultante da cópia e importação de um modelo, de uma cultura e de um legado, que embora, em certos pontos, partilhássemos, não decorre de uma diegese portuguesa – ou seja, pedimos emprestado (e apenas a feição musical), preenchendo os espaços com a nossa própria cultura e praxis académicas – resultando, por vezes, numa manta, nem sempre clara, de retalhos histórica e cultural onde, aqui e ali, se estabelecem paralelismos, troca de experiências, visitas mútuas, influências, etc., aproximando-se e distanciando-se conforme o andar da máquina do tempo, em cada lado da fronteira.

De notar que o ressurgimento das Tradições Académicas e da Praxe – e onde nascem as Tunas Universitárias – é datado de finais dos anos 70, inícios dos de 80, ou seja, se no caso espanhol os anos 70 recuperam, em Democracia, o “correr a Tuna”, agora de forma mais espontânea e livre, em Portugal não há histórico que recupere um ressurgimento de Tunas universitárias, logo após o 25 de Abril de 1974 da mesma forma – e logo aqui se nota uma grande diferença entre o caso espanhol e português.

Daí que, em abono da verdade, apenas se poderá falar de Tuna universitária em Portugal reportando-se apenas ao período do “boom” tunante, podendo-se contudo observar mais atrás (1880 até inícios do Século XX) casos pontuais e isolados de agrupamentos apenas compostos por estudantes universitários e no contexto muito próprio da estudantina de finais do Século XIX, inícios do de XX. Sendo que anteriormente a isso, salvo a TUP (a partir de 1936) e, a determinado momento, a TAUC, apenas podemos falar em Tunas Académicas, tout court, onde se misturam universitários, liceais (e até civis). A Tuna em Espanha resgata o conceito pícaro do Tuno anterior ao advento das Estudiantinas precisamente para se distanciar destas últimas e para vincar o "correr a Tuna" estritamente no seio universitário; se quiserem, algo paralelo ao ocorreu com o nosso "boom", sendo que no nosso caso temos um hiato temporal e em tempos distintos (no caso espanhol mais cedo 70 anos).
O que em Portugal sucede, no dito “boom”, é o “recuperar do tempo perdido”, um “abreviar da narrativa”, onde se regressa às origens por cópia do modelo institucionalizado em Espanha: Tunas estritamente Universitárias (onde, temos também, o recuperar da terminologia “Estudantina”, como é o caso da EUC, EUL ou da tuna que organiza este 6º ENT, entre outras).

Este esclarecimento histórico tem como principal razão o desmistificar de muito do que se possa pensar, alvitrar ou deduzir. A estudantina em Portugal de finais do Século XIX, inícios do de XX é uma espécie de Rainha Isabel II que seguramente irá passar o trono de Inglaterra não ao filho mas ao neto mais velho, saltando por cima do Príncipe Carlos com olímpica galhardia.
A Tuna universitária portuguesa hoje é, se quiserem, "neta" da estudantina/tuna portuguesa de então (na época, “irmã” da espanhola), e prima directa da actual tuna espanhola - o que, não sendo a mesma coisa, são ambas da mesma família. Esta noção é absolutamente fulcral para:

1º) Se entender a história da Tuna portuguesa enquanto tal;

2º) Se perceber o que de facto é uma Tuna Universitária e

3º) Se esclarecer, hoje – tal como ocorreu no advento das estudiantinas em Espanha na transição entre os Séculos XIX e XX, que alguns por cá são definitivamente mais parecidos, ou mesmo semelhantes historicamente, a uma estudantina e por tal, longe ou mesmo nos antípodas da Tuna Universitária. Em suma, mais uma prova historicamente delimitada de que a Tuna portuguesa recolhe profunda influência no fenómeno do lado de lá da fronteira.

A primeira tuna académico-juvenil , pós 25 de Abril, apareceu no decurso de 1983, em Vila Real, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Desde logo optou por um reportório de música popular, essencialmente transmontano, que provinha do Cancioneiro de Rio d’Onor, característica ainda hoje marcante nesta Tuna. A recolha era feita pelos próprios elementos que, para tal, se deslocavam às aldeias dos vários concelhos transmontanos e pediam às pessoas mais idosas que lhes cantassem as músicas da sua terra. Exemplo disso é a famigerada música “Mulher Gorda”, que foi recolhida na zona de Alijó (e entretanto “roubada” pela EUL e antes desta fora o tema gravado pela Tuna de Letras da Universidade do Porto, constante na sua primeira cassete). Neste reportório contam-se ainda músicas recolhidas na zona de Miranda do Douro, cantadas em dialecto Mirandês, e ainda músicas típicas da região do Douro.

É notório, aqui, que concepção de Tuna, registada na UTAD, é advinda não do meio académico, mas do foro popular, onde a fenómeno se manteve vivo e fervilhante desde o séc. XIX – XX e que suporta, claramente, a ideia de repertório popular (muitas vezes em detrimento do erudito), e aliás não podemos esquecer que altura houve (no início do “boom”) quem defendesse que as tunas deviam tocar música popular e que eram como que “testas de ferro” e grandes defensoras da música popular - quando, na origem, a Tuna é caracterizada pelo repertório eclético. À medida que o fenómeno amadurece, os temas populares perdem primazia e recupera-se o gosto da produção, ou reprodução de composições mais eruditas.

Numa fase posterior começou-se a conjugar as músicas populares com letras de cariz universitário (leia-se, académico), uma vez que o Ambiente Académico começava a fervilhar nesta cidade. Esta mistura do popular e académico resulta numa perfeita simbiose, ainda aliada à cultura, na qual consiste a riqueza desta Tuna.
Para além da música, o traje é também vincadamente transmontano, já que é inspirado no traje de gala mirandês. Todavia esta agremiação pautou-se por uma existência discreta: repertório popular, calmas presenças em palco, Capa Mirandesa utilizada sem impacto visual mobilizador.

A Estudantina Universitária de Coimbra originou um inusitado fenómeno de “tunomania” que contagiou, a nível local, os públicos dos saraus académicos, estações de rádio e festivais musicais da Queima das Fitas. Na 2ª metade da década de 80 as modas da Estudantina eram furiosamente assobiadas nas ruas de Coimbra por estudantes e populares. Em palco ou em arruada, os estudantinos tudo arrebatavam com as suas cantorias, brejeirices, cantos goliardos, piropos e excessos à normalidade de todos os dias.

A “tunomania”, muito por força do impacto obtido pelo Vinil, e depois CD, “Estudantina Passa” rapidamente alastrou a todas as localidades onde funcionavam jovens universidades públicas, universidades particulares e toda a sorte de institutos superiores públicos e privados. A febre foi de tal ordem, particularmente na década de 1990, que por vezes não se sabia ao certo quem era quem, tanto mais que algumas tunas dos politécnicos se apresentavam como sendo "universitárias". Letras simples, entre o romântico e o brejeiro, melodias dançáveis e facilmente trauteáveis, inclusão de canções populares, faziam da Estudantina de Coimbra um grupo irresistível. O cavaquinho, o tambor, os bandolins e o acordeão conferiam-lhe um certo ar de arraial popular próximo das tradicionais chulas nortenhas e grupinhos de sol-e-dó . O bamboleio do burlesco estandarte, os gritos de incitamento à folia, a báquica euforia, as piadas do público, as capas atiradas ao ar ou atapetando os chãos, tudo parecia contribuir para contagiar os públicos mais renitentes.

Em ambientes portugueses menos familiarizados com os costumes estudantis, os membros da primeira geração da Estudantina eram vistos como um bando de perigosos e extravagantes arruaceiros toldados pelos aromas dionisíacos. Estudantes da Universidade de Coimbra ou bando de "bárbaros" saídos da província para tormento do pacato e desconfiado burguês, eis a perplexidade frequente.

Para o sucesso da Estudantina de Coimbra contribuiu em primeira mão o estudante de Direito António Vicente, que apostou na produção de um repertório ligeiro, recheado de sucessos que iam da balada romântica, às sentimentais modas de serenata e às canções posicionadas na esteira das gravações do Conjunto António Mafra.
Por todo o país se cantaram temas divulgados nas digressões da Estudantina como o burlesco "Afonso" (de alguma forma uma actualização das aventuras do João Fernandes do "Palito Métrico"), a "Rapariga" e o "À Meia Noite ao Luar" (este último, não original da EUC).

Em 1988, a Estudantina gravou o seu 1º disco vinil, o LP "Estudantina Passa". O disco vendeu fartamente em 1989 e foi tocado nas feiras, arraiais e nas rádios regionais. O dinheiro das vendas garantiu mesmo à Secção de Fado da AAC folgança financeira. As letras da Estudantina, com os tons do acompanhamento escritos por cima dos versos, foram entoadas em festas de Natal de professores, jantaradas de cursos e convívios informais juvenis.


O final da década de 1980 foi o tempo da emergência das tunas estudantis, um pouco por todo o Portugal continental e insular. Foram os anos optimistas do licenciamento de cursos pela mão do Ministro da Educação Roberto Carneiro, da recuperação das Tradições Académicas e da Praxe e da chegada ao Ensino Superior dos filhos do “baby-boom” dos anos 60 e 70. Três factores preponderantes e que ditarão o “boom” tunante.


Fenómeno algo semelhante tinha ocorrido na Universidade de Coimbra, liceus e politécnicos pelas décadas de 1880-1890. Mas as proliferantes tunas estudantis da década de 1980 distinguiam-se das suas congéneres do passado:

•Adoptando o visual erecto, de tipo arruada, afastavam-se do modelo clássico da tuna sentada com ar muito sério e composto, capa descaída pelos ombros, com estante e partitura à frente (na “tuna clássica” os executantes de contrabaixo podiam ficar de pé, na fila traseira do palco); Ou seja, adopção de uma estética mais próxima à Tuna espanhola.

•Em termos de repertório, optando pelos temas de tipo arraial, distanciavam-se das peças dos compositores ditos clássicos (que vieram a ser recuperados, em 1ª instância, pela Tuna Universitária do Porto).

•o figurino escolhido a nível dos trajes e da teatralização de palco já não era o da tuna da época clássica. Proliferou a imagem da tuna erecta, directamente inspirada nas arruadas tunantes portuguesas e nos desfiles à espanhola – pasacalles. Os elementos das tunas erectas executavam “passos de dança” simples, alinhando em meio-círculo, descrevendo oitos e círculos, avançando e recuando em ondas, com os pandeiretas em acrobacias e o porta-estandarte em agitação frenética.

Em certos casos, os trajes remetem directamente para vestimentas envergadas pelas tunas espanholas desde meados do século XIX. De início, o fenómeno tunante ficou marcado pela produção de imagens afirmativas do monopólio da masculinidade. No entanto, a constante emergência de tunas veio abrir campo a formações exclusivamente femininas e ainda a outras mistas (fenómeno mais incisivo a sul do Mondego).

No caso de Coimbra, imperou a Capa e Batina de modelo masculino herdada do período da 1ª República. Os estudantinos apresentavam-se com a Capa traçada "à estudantina", exibindo o forro repleto de emblemas policromáticos (clara influência da Tuna espanhola e da moda mochilera em voga nos anos 60 que as influenciou). Tamanha garridice, aliada aos fitilhos pendentes dos cordofones, conferia ao conjunto um ar festivo. Em Coimbra não se registou nenhuma invenção do traje. Apenas foram permitidas liberalidades cromáticas. Em todo o caso não se recuperou o laçarote/fitas de ombros, estilo menino de comunhão solene, outrora exibido pelas tunas estudantis (permanece na Tuna do Liceu de Évora, p.ex).

Relativamente aos estabelecimentos de ensino superior nortenhos, excluindo Braga/Guimarães (reino do Tricórnio desde 1989 mormente a Tuna da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Braga trajar ainda hoje Capa e Batina, bem como os seus estudantes) e Vila Real (Capa Mirandesa), a reorganização da Tuna Universitária do Porto em 1987 ditou o figurino em termos de visual e de repertório. A TUP, revigorada como agremiação masculina (anos antes esporadicamente surge com composição mista e no seio dos espectáculos do OUP somente), propunha a capa dobrada no ombro, tipo avental ou capa à toureador com a bainha sobre o ventre, repleta de emblemas (esta forma de dobrar a Capa não ocorre no Centro nem no Sul, mas a parafernália de emblemas, fitilhos e crachás é idêntica), vozes masculinas vigorosas, compromisso entre a tocata clássica (contrabaixo), e um repertório eclético onde pontuavam temas como "Amores de Estudante" (tango), "Adios Coruña", "A Luz", "Cielito Tuno", "Ondas do Douro", a "Marcha Turca" de Mozart, a "Lezíria Verde", a versão Vitorino de "Menina que estás à Janela" e a burlesca "Capuchinho " (Carlos Paião).

A Tuna do Orfeão Universitário do Porto não tinha, então, qualquer autonomia «performativa» fora dos saraus do OUP, tal como a não tinha nenhum outro grupo (q.v. Danças de Douro e Minho / Açores e Madeira / Pauliteiros; Jograis, Cantares Alentejanos/ de Maçadeiras, etc., etc.) - donde decorre que não tinha como (nem a quem) servir de modelo. Aliás, o formato, em si, nem sequer era apelativo às novas gerações de estudantes.


A partir de 1987, muda fundamentalmente de formato para o actual. A primeira deslocação a Lisboa dá-se por volta de 1990. As deslocações à capital são raras e muito espaçadas, ao contrário do que sucedia com a EUC. Por razões que poderão ter que ver com várias ordens de factores – proximidade geográfica, maior presença/influência de ex-alunos de Coimbra em Lisboa (Parlamento, etc.), por Coimbra ser o berço da Tradição, etc. (todas elas compreensíveis, naturais e nada criticáveis), o facto é que a EUC mantinha uma presença assídua em Lisboa/Sul. A EUC tinha autonomia de actuação, a Tuna Universitária do Porto não. Para convidar a TUP era necessário convidar o OUP inteiro, o que era impraticável. Isto explica a maior visibilidade da EUC em relação à TUP nomeadamente a sul do país.

Só a partir de 1989/90 é que a TUP começa a girar sozinha e a ser mais solicitada individualmente. Ainda assim, as deslocações a Lisboa são espaçadas e raras. Importa referir que o «boom» está em franca expansão.

De alguma forma, é a cisão da Tuna da Universidade Internacional de Lisboa (mista) que vai dar origem à primeira Estudantina da capital: a Estudantina Universitária de Lisboa (1992, cujo mentor foi o Luís Caçador - ex-Universidade Internacional) e esta foi a pedra de toque para as restantes.

Não haja dúvida de que a formação desta primeira foi fortemente influenciada pelas teorias então defendidas e divulgadas por alguns elementos da EUC de então, parte delas erradas, diga-se, e que, grosso modo, se podem resumir a:

a) O mérito da composição de originais sobre as adaptações (concepção errada);

b) Por tradição, o estudante faz serenatas de capa traçada;

c) As tunas começaram por ser grupos de música popular - donde o bombo, as flautas e os acordeões e nada de contrabaixo (concepção errada);

d) Como agrupamentos de origem/índole popular, o «som» tem de ser popular, donde o tipo de percussões (pandeiretas eram inexistentes então nomeadamente tocadas em plena coreografia) - (concepção errada);

e) Como agrupamentos de estudantes, a composição deverá versar sobre temas da vida académica: a boémia, a cábula, a conquista, o chumbo, a irreverência, a noite, etc.

Todas aquelas teorias são válidas. Tudo é bom. Tudo é genuíno. Curiosamente, a própria EUL de idos de 93 não é esteticamente a mesma EUL de hoje, inflectindo ela também posteriormente. O mesmo ocorreu nomeadamente com a Infantuna Cidade de Viseu, por exemplo; basta ver o repertório dos 1ºs anos e o de hoje. Até a própria Estudantina Universitária de Coimbra a seu tempo inflectiu para o modelo mais próximo ao da TUP.

Mas basta pensar nas diferenças entre a Antunía (por exemplo) e o panorama tunante do resto de Lisboa: ela que, durante muito tempo, foi a única a bailar pandeireta e bandeira, a única a tocar música «erudita», etc. Eles assumiram claramente, desde o início (dando-se a conhecer ao mundo Tunante nacional, aquando da participação no 1º CELTA, em Braga – 1993 - causando enorme sensação pela sua peculiaridade, sendo originários de Lisboa), o «modelo» TUP (à parte uma ou outra característica); outro exemplo mais tardio na inflexão: a TUIST., que inflecte para um repertório distinto e musicalmente mais complexo, em meados de 1994/1995. Curiosamente, ambas se designam «tunas».

Há claramente a influência da EUC no Sul, e a da TUP, no Norte (acima de Viseu). As designações de «Estudantina» devem-se à influência que aquela exerceu – por ou contra vontade – no meio lisboeta e, posteriormente, ao mimetismo em relação à EUL, mas também, porventura pelo desejo de diferenciação (segundo a lógica do jogo de palavras e nos bairrismos vários, de que os trajes “a metro” são paradigma). Acredita-se que, neste momento, as diferenças entre os «modelos» estejam de tal forma esbatidas, e a memória tão delida, que seja difícil verificar no dia-a-dia o «extremar» destas características. O que se nota, de forma clara, ao longo dos últimos 20/25 anos, é a inflexão de muitas que então adoptaram o modelo EUC para um modelo mais parecido ou próximo do da TUP – e não o contrário.

Quem se identificava mais com a EUC adoptou então «estudantina»; quem se identificava mais com a TUP adoptou «tuna», embora as influências, não passaram tanto pela adopção de nomes mas mais de estilos) Mais: houve, da parte de alguns, uma autêntica lavagem cerebral aos novos agrupamentos nesse sentido – justamente com os argumentos enunciados, para lá de quem defendesse que «tunas» eram agrupamentos populares, pelo que os grupos de estudantes deviam ser estudantinas - por derivação...

Obviamente que, em termos históricos, assim deveria ser, mas ambos os termos, por serem sinónimos, possuem validade, mais ainda nos dias de hoje em que as duas terminologias quase regressaram ao uso exclusivo do foro estudantil.

O fenómeno das tunas, contemporâneo da massificação do ensino superior português, mobilizou, desde cedo, as atenções da indústria dos bens de entretenimento, lembrando, de alguma forma, os dispositivos bem conhecidos e testados na esfera de acção dos ranchos folclóricos: organização de festivais de tunas, alojamento, gravação e comercialização de discos, gestão de convites para actuações, transportes, alimentação, palcos, material sonoro, impressão de programas, divulgação de notícias relativas a eventos tunantes, encomenda de trajes distintos do modelo clássico da Capa e Batina, constituição de júris, atribuição de troféus.


Quanto a tunas clássicas existentes na década de 1980, são conhecidas:

1 - TAUC: Tuna Académica da Universidade de Coimbra, oficialmente fundada em 1888 sob a designação “Estudantina de Coimbra”, mas resultado directo de experiências espontâneas multisseculares, com um crescendo de "bandolinatas" e "estudantinas" registado a partir da fundação da orquestra do Teatro Académico em finais da década de 1830. Pode dizer-se que a demolição do Teatro Académico nos finais da década de 1880 e a correlativa desarticulação da sua orquestra foram determinantes na formalização da TAUC em 1888. Outra motivação (a principal, aliás) de peso foi a euforia gerada pela visita da Estudantina de Santiago de Compostela, contágio que logo alastrou aos liceus e academias politécnicas; Actualmente a sua configuração é mista.

2 - TUP: Tuna Universitária do Porto, integrada no Orfeão Universitário do Porto desde a década de 1920. Não se sabe ao certo qual a data rigorosa da fundação deste agrupamento. Os dados disponíveis referem que a TUP é anterior à fundação da própria Universidade do Porto, pois resultou da continuidade da Tuna Académica/Escolar do Porto, activa pelo menos desde 1890 (liceu, escola politécnica, escola médica);

3 - Tuna do Liceu de Évora, a única sobrevivente de entre as múltiplas formações liceais (por estudar), usando Capa e Batina com laçarote verde no braço, fundada em 1900, com primeiro espectáculo em 1901 e oficializada com eleição dos corpos gerentes em 1902;

4 - Tuna da Associação dos Antigos Orfeonistas da Universidade do Porto, fundada em 1977, com visual e repertório clássicos;

5 – Tuna dos Antigos Tunos da Universidade de Coimbra, grupo misto, constituído em 1985, de acordo com a solução clássica sentada e repertório ecléctico em voga entre as décadas de 1920-1970, resultando da experiência (prolongamento) vivida na TAUC.


Quanto ao surgimento de novas agremiações tunantes desde a década de 1980, sabido que o grande boom instituinte se verificou na década de 1990:

-Tuna Académica da UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real), agremiação mista fundada em 1983. Usava como elemento distintivo a Capa de Honras transmontana da região de Miranda do Douro;

-Estudantina Universitária de Coimbra (EUC), grupo masculino, com uso da Capa e Batina, repertório eclético, figurino tipo arruada ou pasacalle, fundada em 1985;

-Tuna da Universidade Internacional de Lisboa, mista, fundada em 1988;

-TEUP, Tuna de Engenharia da Universidade do Porto, fundada em 1988, então mista, influenciada pelo modelo espanhol;

1989

-Moçoilas, Tuna Feminina da Associação Académica da Universidade da Beira Interior, com traje próprio;
-Tuna Feminina do Orfeão Universitário do Porto;
- FanFarra Académica de Coimbra;

1990

- As Fans – Tuna Feminina da Universidade de Coimbra;
-Tuna Académica da Universidade Portucalense, então mista, Porto, e originando depois uma formação masculina e outra feminina.
-Tuna Académica da Universidade de Évora (TAUE);
-Tuna da Universidade Católica Portuguesa, Porto;
-TAISCTE, Tuna Académica do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, mista, Lisboa;
- Tuna Académica do ISEP, Porto;
-Tuna Universitária do Minho, Braga, grupo masculino. Usa o Tricórnio com adaptações;
- Tuna Feminina da Universidade Católica Portuguesa, Porto;
- Tuna da Faculdade de Letras da Universidade do Porto;

1991

-Versus Tuna, Tuna Académica da Universidade do Algarve, usa traje próprio;
- TUNGA, Aveiro, mista, 1991; mais tarde – 1995 – iria fundir-se com a Rial Tuna de Aveiro do ISCAA, originando a Tuna Universitária de Aveiro.
a-Tuna de Medicina da Universidade do Porto, então mista, e originando depois uma formação masculina e outra feminina mais tarde;
-Infantuna de Viseu, juntando alunos de diferentes estabelecimentos de ensino superior;
- Tuna Académica da Universidade Lusíada do Porto;
- Tuna Feminina da Faculdade de Letras da Universidade do Porto;
- Real Tunel Académico – Tuna Universitária de Viseu, 1991, juntando alunos de diferentes estabelecimentos de ensino superior tal como a sua colega Infantuna;
- Tuna de Ciências da U. Porto;


Certame/Festival

Outro dos factores que a Tuna universitária portuguesa importa do modelo espanhol é o conceito de certame ou festival. Nos anos 70 do Século XX e após a queda de Franco e consequente desaparecimento da influência do Sindicato Espanhol Universitário, as Tunas espanholas de então – umas transitadas dos tempos do Franquismo, outras anteriores, e outras ainda, entretanto fundadas – iniciam um movimento que ficou conhecido então como “Grandes Certames”. Jesús Crovetto, chefe da Tuna de Direito de Granada, teve o valor de organizar este primeiro Certame de Tunas a 15, 16 e 17 de Abril de 1977. O mérito residiu em ter conseguido alojamento e comida grátis para todo aquele que quisesse participar.

Foi tal o êxito obtido que marcou um estilo de organização dos certames de tunas e inclusive propiciou o reavivar da Tuna em Espanha. A este certame seguiram-se uma série de outros que foram batendo recordes de assistência de Tunos, tendo-se deixado de organizar por esse mesmo motivo. Esses Grandes Certames percorrem anualmente cidades como sendo Salamanca (1978), Santiago de Compostela (1979), Huesca (1980), Múrcia (1981), Sevilha – que contou com a presença da Tuna Académica da Universidade de Coimbra, perfeitamente desalinhada com as suas congéneres espanholas e sul-americanas (1982) dado ser estritamente instrumental (e sentada), Saragoça (1983), Córdoba (1984), Alicante (1987), Múrcia (1989). Os certames provinciais, de circuito e nacionais iram proliferando ao longo dos anos oitenta. Iniciam-se então alguns dos poucos certames de carácter internacional.

Neste cenário, é importante ter em conta o papel absolutamente determinante desempenhado pelo «Objectivo 92» começado a implementar em 1982 (uma década antes, portanto...) como preparação para dois grandes acontecimentos em Espanha: a Exposição Universal de Sevilha e os Jogos Olímpicos de Barcelona. Estas duas iniciativas, precedidas pelo Mundial de Futebol do célebre «Naranjito» catapultaram a Espanha definitivamente para o cenário internacional.

Importantíssimo foi apoio dado pela TVE a tudo o que fosse intrinsecamente espanhol, com a promoção de concursos nacionais de tudo e mais alguma coisa - bandas, cantores de flamenco, rondallas e Tunas.

O programa «Gente Jóven» foi uma autêntica montra de talentos a todos os níveis. Foi uma iniciativa sem precedentes, e sem continuidade. Inteligentemente, o Governo espanhol de então aumentou a potência dos retransmissores da TVE de forma a também cobrir Portugal, afogando-nos de ondas hertzianas e aculturando, assim, do lado de cá da fronteira. Foi na década de setenta que surgiram a maioria dos livros que reportam relativamente a Tunas e à sua cultura, por oposição a Portugal que ainda hoje, salvo a obra “Tunas do Marão”, nada tem de assinalável a esse nível.

Os Festivais de Tunas dos anos 80/90 muito devem a esse impulso, inclusivamente o próprio formato, que não os objectivos. Isto explica, em parte, a ferocidade na competição – que, ainda hoje, infelizmente, se faz sentir.

Não haja dúvidas, ainda por outro lado, que a qualidade musical subiu exponencialmente e que o fenómeno gozou de níveis de popularidade sem precedentes, repercutindo-se pela década seguinte, vindo a morrer com o segundo Governo de Felipe González (e o primeiro do Partido Popular de Espanha), altura em que o Governo Central começou a cortar os subsídios para a cultura.


Certame/Festival – Caso Português

Quanto ao cenário em Portugal, elejo um caso de estudo e quanto a certames, tomando-se nota que os mesmos surgem – os mais antigos – no virar da década de 80 para 90 do século XX, a par, portanto, do “boom” tunante - e um dos seus pilares até, o FITU Bracara Augusta, por deveras ilustrador.

Este certame internacional surge em 1991 e com carácter anual, tendo tido numa fase inicial grande predominância de Tunas espanholas, sendo que nas 1ªs seis edições as vencedoras foram tunas espanholas e a Tuna de Segreles (5ª e 6ª). Numa primeira fase, poucas tunas portuguesas marcaram presença no FITU Bracara Augusta, precisamente por poucas então existirem, tendo tido a participação por exemplo de uma Tuna mista – Universidade Internacional – até à sua 5ª edição inclusive; o figurino do certame era em tudo idêntico ao modelo dos certames espanhóis de então – nos prémios a atribuir, no calendário e programa de actos, o pasacalles, a reunião de Magister´s, o baptismo de caloiros. A partir de dado momento, o leque de tunas portuguesas existente a cada passo foi marcando os convites do FITU Bracara Augusta, num exercício de democratização do evento face aos seus congéneres de outras latitudes – mais reféns de um determinado conservadorismo que ainda hoje vigora – permitindo que com o avançar das edições este certame venha a ter cada vez mais participações nacionais em detrimento das participações de tunas estrangeiras, o oposto da sua fase inicial pelo menos até à sua 6ª edição – que pela primeira vez tinha mais tunas nacionais presentes que estrangeiras. Ou seja, este caso de estudo ilustra duas coisas desde logo e de forma exemplar:

•A influência do modelo espanhol também na organização de certames;

•Ilustra a galopante subida de influência, pela quantidade, e qualidade crescente, das tunas nacionais, reflectindo-se, tal, na evolução do evento em concreto.

Caso de estudo precisamente pelo paralelismo evidenciado com o próprio avançar do fenómeno nacional durante e após o “boom” tunante, e que não encontra paralelismo em outro certame decano organizado anualmente em Portugal com carácter internacional.
Hoje em dia, outros factores contribuem para uma maior presença nacional nestes eventos internacionais por cá realizados – a alegada pouca qualidade musical das tunas espanholas em geral, a crise que também impede deslocações longas a outros países com maior regularidade, etc.
No entanto, neste caso de estudo, percebe-se, e analisando a par e passo, uma clara evolução num determinado sentido, reflexo do momento e das circunstâncias específicas dos mesmos, promovendo a meritocracia tunante e não outros factores menores, que são tão legítimos quanto castradores e por tal, não representativos de uma evolução do fenómeno.

A 1ª Tuna nacional a vencer o FITU Bracara Augusta foi a TUIST, na sua 7ª edição, precisamente numa altura em que era perfeitamente possível que tal sucedesse, e face às Tunas estrangeiras, sendo que antes os 2ºs e 3ºs lugares ocupados por tunas nacionais foram sendo, à medida de cada edição, mais frequentes, ameaçando, entre aspas, o inevitável a prazo. Outros certames porventura encerrarão esta dinâmica temporal e ilustrativa da evolução do fenómeno.

Foi também nos anos 90 que, pela primeira vez, uma tuna portuguesa alcança a distinção máxima fora de fronteiras nacionais – TUP em Múrcia – seguida por outras tunas nacionais que alcançam o mesmo feito fora de portas – TAULP, Tuna Universitária do Minho, Estudantina Universitária de Coimbra – numa ascendente afirmação do fenómeno tunante nacional em vários pontos da geografia mundial. Por oposição, há vários anos, e em vários certames, que é difícil encontrar uma distinção cimeira para uma Tuna espanhola nos certames por cá realizados.


1995: O programa “Effe-Erre-Yá” (F.R.A.).

No ano de 1995 – ou seja, oito anos após o programa espanhol “Gente Joven” - em pleno apogeu do “boom” tunante e seguramente reflexo do mesmo, o então Centro de Produção da RTP Porto levou a cabo um concurso de Tunas, em conjunto com a Tuna Universitária do Porto e que contou com a presença das seguintes 10 Tunas, tidas então como as mais representativas a nível tunante, para lá de qualidade geral reconhecida à época: Tuna de Engenharia da U. Porto, Tuna de Medicina da Universidade do Porto, Tuna da Universidade Católica Portuguesa-Porto, Tuna Académica da Universidade Lusíada do Porto, Antúnia-Tuna de Ciências e Tecnologia da U. Nova de Lisboa, TUIST, Tuna Universitária do Minho, Azeituna, Estudantina Universitária de Coimbra e Estudantina Universitária de Lisboa.

Estou particularmente à vontade para falar deste programa de televisão que, quanto a mim, foi muito mais do que isso. Foi de facto, um marco histórico no panorama Tunante nacional, programa este que foi, até à data de hoje, o ÚNICO programa exclusivamente dedicado à Tuna Universitária portuguesa (um pouco como o “Gente Joven” em Espanha) em toda a sua plenitude, o que, por si só, atesta da sua validade intemporal e importância cabal no próprio desenvolvimento do fenómeno, como ficou provado de aí em diante, aliás.

Mais ainda, foi um programa transmitido numa época importante para o panorama e com várias particularidades que o indicam como um dos – poucos - momentos de capital relevância em toda a História Tunante portuguesa; transmitido aos Domingos de tarde, em "prime time" importantíssimo - e que não é atribuído pelas direcções de programação de uma qualquer televisão de forma leviana ou sem critério - durante 13 emissões seguidas, sendo que cada emissão ocupava cerca de hora e meia (e não um minuto de final de “talk show” com notas de rodapé a passar tipo “marquee” por cima da tuna), em canal aberto para todo o país e ilhas.

Mais: foi transmitido pela RTP Internacional - ou seja, para todo o mundo - e RTP África, o que torna este programa no evento de tunas mais visto de SEMPRE - e de longe - relativamente a qualquer outro evento tunante feito/realizado em Portugal.

Sendo o único programa exclusivamente dedicado a Tunas feito até hoje, foi, por isso mesmo, sui generis; as participantes actuavam com som directo e com o respectivo suporte áudio, propositadamente preparado para o efeito, com público assistente (as famosas claques do Efee-erre-yá), para lá de cameras e luzes (luzes essas que muitas vezes obrigavam a re-afinação de instrumentos no intervalo dos vários “takes” - o programa não era transmitido directamente, antes sim gravado com público e previamente - para lá do imenso calor que as luzes provocam - deve-se não esquecer que trajado se estava).

O seu regulamento referia a obrigatoriedade de uma prova dita académica, que mais não era que um “sketch” feito pelas participantes, com uma duração pequena, prova essa que contava para a avaliação final, embora com um peso reduzido, juntamente com os 3 temas apresentados. Apresentaram-se 10 tunas e cada uma teve uma emissão exclusivamente a ela dedicada, passando-se às meias-finais com as 4 mais votadas nas dez emissões anteriores – 1ª meia-final entre Antúnia e Tuna Universitária do Minho e 2ª meia-final entre Medicina Porto e Lusíada Porto - e depois, à final, disputada entre Tuna Universitária do Minho e Tuna Académica da Universidade Lusíada do Porto, a vencedora da mesma. Foram, portanto, 13 emissões consecutivas de Tunas aos Domingos.

Deve-se referir que na passagem às meias-finais e depois final, as tunas somente poderiam repetir UM tema dos tocados na emissão anterior - ou seja, teriam de apresentar dois outros temas até então não apresentados - bem como teriam de apresentar outra prova académica, ou seja, obrigando - a quem alcançou as meias finais e final - a uma gestão de temas e a um trabalho na criação de novos “sketchs”. O Jurado era composto por dois elementos fixos – Maestro António Sérgio e Carlos Araújo, músico - e mais um que mudava a cada emissão, que votavam matematicamente quer a prestação musical - com maior peso - quer a prestação relativa ao “sketch” (com menor peso), resultando dessa soma a votação final.

Hoje pode-se dizer - e eu, em particular, que vivi por “dentro” o programa - que foi uma excelente propaganda ao fenómeno Tuna, mostrando a todos que a ele assistiram o que são/eram, de facto, Tunas, desmistificando, esclarecendo, mostrando por dentro a realidade de cada uma das participantes e, logo, de todas as Tunas em geral.
Foi graças ao “Effe-Erre-Yá” que as portas da RTP ficaram abertas para muitas tunas posteriormente, através 1º da “Praça da Alegria” e depois no “Portugal no Coração” - e aqui palavra de agradecimento a esse grande apreciador de Tunas e que sempre as acarinhou, Manuel Luís Goucha, que muito fez pelo fenómeno no seu todo.

Foi sem qualquer margem para dúvidas - e para lá do resto – muito importante a divulgação que o "Effe-Erre-Yá" conferiu às Tunas em geral, deixando junto de milhões de pessoas uma imagem realista e, logo, melhor, do que a que existia até então, para lá de dar a conhecer noutras paragens o fenómeno em si; coisa que, até hoje, nada nem ninguém conseguiu com a mesma força e impacto, o que por si só basta. Pese tudo isto, o capital de credibilidade que o programa então conferiu à Tuna portuguesa foi desbaratado paulatinamente após o mesmo, perdendo-se, assim, uma excelente oportunidade de vincar o que é realmente a Tuna Universitária Portuguesa.

A dimensão e importância do programa, essa, é inquestionável, intemporal e, por força disso mesmo, ainda hoje com enorme validade, porque prova cabal da importância, quando bem gerida e tratada pelas próprias Tunas, deste fenómeno cultural que todos acarinhamos. Por força do atrás dito, foi este programa um marco histórico nas tunas universitárias portuguesas e, paradoxalmente, marcou o início do fim do “boom” tunante, sendo que daí em diante outro período específico surge, carecendo ainda hoje de distanciamento histórico para o seu estudo mais concreto.

Em suma:

- Os modelos tunantes surgidos no “boom”, quanto à influência da TUP e EUC estão, hoje, perfeitamente esbatidos, resistindo apenas em algumas poucas academias cada modelo (concepção ideológica), mais por conservadorismo do que propriamente por convicção ideológica. Outros modelos foram entretanto surgindo, com especificidades muito concretas roçando até em alguns casos modelos de moda, com prazo de validade – e que, na procura quase dogmática de afirmação pela diferença, coloca os seus remetentes fora do prisma tunante - do que propriamente uma filosofia ou doutrina esteticamente delimitada.

- Perdeu-se muita da espontaneidade da Estudantina de Coimbra de idos de 80 e ganhou-se muita da seriedade musical mais conotada com a TUP. O Muro de Berlim entre estas duas correntes não só caiu como vão servindo as suas pedras para construir pequenos muros em redor de uma identidade muito própria que todos reclamam como sendo direito à diferença;

- Assiste-se, hoje, a um baralhar que não evidencia a continuidade dessa dupla personalidade tunante nacional, esbatendo-se completamente a mesma hoje em dia;

- Surgem novos fenómenos que, na ânsia da descoberta da roda ou do fogo (da “pólvora”, como se diz), acabam por se colocar claramente fora do âmbito tunante mas parasitando o mesmo;

- O certame de então, que tinha um figurino prático mais vocacionado para a essência do convívio entre tunas e promoção de uma imagem e cultura, e entre estas e a sociedade civil fora de portas, refugiou-se, actualmente, num qualquer teatro a soldo de premiações tão efémeras quanto desprovidas do essencial, criando-se uma espécie de dois tipos de certames: os que elevam a meritocracia saudável, elevando a essência tunante de facto e os que continuam entrincheirados num conservadorismo patético e desprovido de novidade e oportunidade;

- O carácter migrante da tuna nacional foi-se perdendo ao longo dos últimos anos; Hoje viaja-se como Tuna mais por “obrigação” do que por convicção; mais pelo ganho da estatueta do que pela aventura do “correr la tuna”;

- As, então, tradicionais cerimónias de apadrinhamento e irmanação entre tunas nacionais perderam-se quase por completo (mesmo que nunca tivesse sido uma prática enraizada, diga-se) numa clara demonstração de isolacionismo tunante; Conversa-se muito dentro de cada Tuna e pouco, ou nada entre Tunas, sendo o ENT uma olímpica excepção (pese embora o autismo a que se remetem uma considerável parte das tunas/tunos);

- Criaram-se tantos trajes e afins que, nos dias de hoje, a heterogeneidade que sempre existiu antes acaba por ser compreendida como sendo algo pré-histórico face ao cenário actual, mais parecido com o catálogo da la Redoute Outono/Inverno 2009;

- A tuna nacional remou no sentido da procura da distinção face às restantes, mas, ao mesmo tempo, procurando reconhecimento das suas congéneres num exercício tão inexplicável como contraditório;

- Diminuiu drasticamente, e face à época do “boom”, a edição de trabalhos fonográficos, muito provavelmente por força do empenho em competições, em detrimento do empenho em obra a legar às gerações vindouras;

- Renega-se a essência tunante espanhola hoje, como se renega uma doença infecto-contagiosa, não se percebendo que a ela muito se deve estarmos hoje aqui, todos, para lá do exemplo que os Tunos espanhóis encerram no que respeita ao correr a Tuna, enquanto forma de Estar e de Ser;
Por outro lado, elevam-se ou “recuperam-se” traços das tunas do séc. XIX-XX para justificar um qualquer desvio ou fuga ao modelo, sem que, contudo, essa recuperação se faça de modo contextualizado, empírico e com real conhecimento dessa parte da nossa história, confundindo alhos com bogalhos e retirando práticas e teorias fora de contexto.

- Elevou-se a um patamar quase psicopata a qualidade musical tout court por oposição à natureza tunante, num hino ao que se faz à custa do que se é; Se fosse a musicalidade tão importante assim e face ao essencial de uma Tuna, não existiriam hoje tunas em Espanha, p.ex:
Embora a Tuna, centrada no séc. XIX-XX, seja uma expressão musical, não podemos esquecer que a finalidade da qualidade dessa produção servia interesses totalmente opostos aos que hoje registamos.

- Aumentou exponencialmente a informação sobre Tunas – que não entre Tunas – por força do advento da Internet, agilizando aspectos que até então eram rudimentares face ao que hoje está disponível. Nasceram os sites e os portais e desapareceram os libretos de certames e cartões de Tuna. As novas tecnologias surgiram em força sendo que em alguns casos se substituem ao essencial mas também, como já aqui dito, a uma maior perigosidade na difusão do erro e das teorias romanceadas e ficcionadas;

- Surgiram novos conceitos organizativos, por força da criação de tunas mais abrangentes, numa clara resposta aos tempos que se vão atravessando, com claro sucesso porque adaptadas a novos tempos e realidades;

- Antes, o Tuno nacional estava na Universidade; hoje passa pela Universidade;

- Antes, num passado muito distante, a tradição e o património cultural, o legado e a história do grupo/comunidade eram estoicamente promovidos e defendidos; apreendidos numa verdadeira escola de valores, passagem de saberes, ensino-aprendizagem realizado na relação entre veterano e novato que dotava o tuno de competências não apenas artísticas. Hoje em dia, grassa uma autêntica iliteracia tunante que cria espaço e “terra de ninguém” para a invenção, a neo-teoria e a pseudo-legitimação de desvios e contrafacção de práticas e/ou de grupos.

Este será porventura o grande mito que urge descodificar para o futuro, a par com outros conceitos e pré-conceitos atrás enunciados, que nos mostram claramente uma única certeza:


• A falta clara de rumo em todo o espectro nacional, por muito que a espontaneidade tunante de sempre esteja, e deva ser, salvaguardada. E, para que essa espontaneidade esteja sempre presente, há que perceber-se, definitivamente, de onde viemos, que caminho percorremos e, essencialmente, perceber no que nos tornámos: Só assim se poderá desbravar o futuro sem esquecer, no presente, que o que somos assenta num passado que urge conhecer – porque só ele nos justifica, hoje.


A todos os que tiveram a gentileza de nos ouvir, e a estóica coragem de ficar até ao fim, mesmo que adormecendo, o nosso bem-haja.


CoSaGaPe |

Dr.Eduardo Coelho

Dr. Ricardo Tavares

Dr. João Paulo Sousa

Dr. Jean Pierre Silva

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