Portugaltunas - Tunas de Portugal

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"EM ESCUTA..."...

"25 Anos De Sonho E Tradição" | EUC (2011)

 

"25 Anos de Sonho e Tradições" foi o titulo escolhido para este trabalho da Estudantina Universitária de Coimbra que, ao fim de vários anos, volta a lançar no mercado um trabalho discográfico - e depois de "Estudantina Passa" em 1989, "Canto da Noite" em 1992 e "Portugal Total" em 1998.

 

Um titulo feliz, deve-se dizer, por ilustrar claramente o conteúdo deste trabalho registado no Webstudio, que e como diz no seu libreto interior, pretendeu cumprir dois objectivos, assinalar os 25 anos da EUC e dar a conhecer o trabalho musical acumulado ao longo dos últimos anos, atribuido-lhe assim a respectiva perenidade. Pelo que pude apreciar, missão cumprida nas duas vertentes, mormente o risco sempre a dobrar da edição de um álbum duplo.

 

De facto, este trabalho transporta-me - por defeito de formação académica, quiçá.... - para um certo paralelismo com a politica adoptada por Deng Xiaoping na República Popular da China: "Um país, dois sistemas" - aliás, conceito que atravessa na diagonal a própria E.U.C. e ao longo da sua rica história. Se este trabalho se apresenta tematicamente segmentado - originais, referências, musica tradicional e popular portuguesa e finalmente, Fado e canção de Coimbra - salta à vista - ou melhor, ao ouvido - na prática que o mesmo está antes e sim segmentado entre as interpretações dos temas mais antigos do grupo, seja de que temática seja, e as mais contemporâneas e/ou actuais que a EUC executa.

 

Ou seja, uma espécie de dualidade entre o sagrado - os temas mais antigos de sempre do reportório - e o profano - as mais recentes peças, com a introdução clara de outros recursos não habituais à sonoridade da EUC, pelo menos à 1ª abordagem, nomeadamente alguma percussão mais elaborada e arranjos mais cuidados quer instrumentais, quer vocais. Escutando com alguma atenção este trabalho bem conseguido em termos de sonoplastia e masterização, é notória essa bipolaridade, principalmente quando se escutam temas como "Traçadinho", "Assim mesmo é que é" ou ainda "Maria da Fonte" - onde o arranjo vocal me soou a estranho e pelo menos - onde é manifesto algum desprendimento interpretativo, por oposição a um cuidado e particular gosto nos arranjos quer vocais, quer instrumentais, de temas mais recentes do seu reportório - como p.ex. "Bach Medley" entre outros. Depois temos verdadeiras pérolas como p.ex "Coimbra (Swing de Abril)" onde vem "à tona" a actual formação da EUC e suas opções estéticas.

 

Eu, pessoalmente, sou - e sem prejuízo do tal profano e sagrado que acima aludi, que muito respeito e gosto - um incondicional fã da Estudantina Universitária de Coimbra de idos dos 90, da sua musicalidade, estética, rasgo de inovação misturado com respeito pela sua tradição, postura irrepreensível a toda a linha. Certamente se recordará os feitos por ela alcançados, uma geração - e sem qualquer menorização de qualquer uma das restantes - Ínclita que, como tal, quanto a mim marca a história desta vetusta instituição. Por essa mesma razão, os temas que mais gosto neste trabalho -e sem qualquer outro cuidado que não o meu gosto - são os "dessa" EUC: "Numa Noite de Luar", "Barquinha", "Senhora Lua" e a incontornável "Balada do 5º Ano Jurídico 88/89". Uma lamentação minha, apenas: falta a versão sublime de "El Condor Passa" - e se coube a alegre versão de "La Banda" seguramente que mais depressa caberia um tema universal e com os arranjos que a EUC apresentou de "El Condor Passa". Foi pena.

 

A responsabilidade era grande. O desafio, titânico. A herança, pesada. Mas desafio cumprido, quanto a mim. É um trabalho extenso mas pautado pelo tal binómio acima, claramente, que poderia não ter corrido bem na produção de um CD deste calibre. Algo que, no limite, prova a incontornável beleza da EUC, sua dimensão, peso institucional e projecção em sucessivas gerações de tunos que por ela passaram, passam e seguramente passarão. Um trabalho indispensável na discoteca tuneril de qualquer aficionado.

EUC_Capacete

Boas RT! Por obra do Diabo ou do Espírito Santo estamos de acordo quanto à maior parte do que aqui escreveste. Só não estamos numa: as músicas que te soam "estranho" a ti soam mesmo "mal" a mim. Ou "rústicas", vá. A verdade, nestas coisas, é o que podemos oferecer de melhor - os prazos eram apertados… Claro que isto não serve para desculpar coisa nenhuma, até porque há, na minha opinião (que é sempre suspeita, ainda mais tendo feito parte da produção do disco) temas que resultaram fabulosos no final: a maior parte do fado de Coimbra, alguns originais e também nas "referências", principalmente a "Serenata do Mondego". Ou seja, para mim este trabalho foi aquele exame que correu muito bem mas em que não fizemos a(s) última(s) pergunta(s). A razão pela qual não incluímos temas do "Portugal Total" foi uma simples: sabíamos que dificilmente faríamos melhor (hoje tenho a certeza que não faríamos). Fica uma sugestão: nestas tuas análises podias também falar sobre o grafismo dos álbums. Penso que seria uma componente bastante engraçada, tendo em conta a evolução (natural) das coisas. No caso da Estudantina, por exemplo, é mesmo engraçado ver a evolução das capas ao longo dos anos (até nos cartazes do Festuna), a chegada do primeiro "Photoshop" e consequente "barroco", etc. De resto, só podes estar de parabéns por esta "review" em particular e pelo trabalho de dinamização do PTunas. Continuem!

João Paulo Sousa

Isto começa a cheirar-me a "esturro"! Já há muitos gajos da EUC a escrever por aqui, e ainda por cima, regularmente...

R T

Antes de mais, obrigado, meu caro! Temos para nós que uma review a um trabalho discográfico é - para lá do risco em si mesmo - algo que não deve ter como estandarte uma análise simplista e centrada apenas em aspectos técnicos (quer da gravação e edição, quer dos executantes); deve a mesma ter uma envolvente que faça perceber ao incauto leitor de ocasião do que, realmente, estamos a tratar. Ou seja, isolar um CD na vida de uma tuna pode ser algo perigoso. Assim, contextualizar o mesmo no tempo e espaço é, mais que a review em si mesma, uma outra forma de historiar quer a tuna em concreto, quer a tuna em sentido lato. Há pormaiores que dizes acima que eu desconhecia porque tinha necessariamente de desconhecer. Ainda bem que assim é, pois torna a critica isenta logo à partida. Sugestões tuas apontadas e serão devidamente acatadas em próximas reviews. Quanto ao resto, obrigado!

Gato Preto

Viva, caríssimo Até parece que estiveste por perto na gravação da obra. A leitura que fazes corresponde exactamente ao que se passou no terreno. O resultado de dois hemisférios diferentes abordados com metodologias diferentes. Mas tem a sua razão de ser quando se pretende repor a história de uma vida. A participação aberta a quem quisesse nos temas mais antigos em contraponto com uma quase caixa-forte no que ao resto disse respeito, traduz-se obviamente em diferenças. E o ouvido nota. Mas neste caso entende-se que a subversão da qualidade final em função daquilo que é o colectivo de uma Tuna tenha ocorrido já que de uma efeméride se trata. Quanto a isto, estamos conversados. Parece-me pacífico. Devo desde já dizer que vejo este documento como mais uma peça da comemoração dos 25 anos, do que propriamente a prestação do Grupo que pretende traduzir e partilhar o seu trabalho. Este disco, como tu bem referes, tem momentos em que estamos a ver a actual EUC com o seu actual desígnio estético, o seu rigor e postura mas com descarrilamentos totais quando se aventura em praias que não são as suas. Como o Capacete refere e bem, as abordagens ao Fado estão excelentes, o que não constitui grande surpresa tanto mais que ele circula nas veias de cada Estudantino. Temas como “Adeus Minho Encantador” e “Coimbra Menina e moça” são de facto grandes registos. Mas onde, na minha modesta opinião, se nota grande excelência é nas abordagens à Música Tradicional. Aqui, sim a EUC navega a todo o pano. Ouvir um original como “Chula do Povo” e as versões instrumentais de “No Palheiro” e “BachMedley” (perceba-se o seu enquadramento instrumental) é de facto transcendente. Eu que sou um fã do Bolero e da Rumba, o digo. Depois vêm os mas. Comungo da tua estranheza não só ao nível do registo, mas igualmente no repertório escolhido. Coisas há que ficaram de fora em detrimento de outras que têm mais importância para esta geração do que propriamente para quem de facto as interpretou. Das duas uma, se é repositório exige-se coerência histórica, se a questão for meramente apetite e gosto, então deve-se praticar primeiro e lavrar depois. Em suma, que já vou mais longo que o insigne fautor deste artigo, dizer que em abono da verdade o tenho, como não podia deixar de ser, na primeira fila da minha discografia tunante, como mais um exemplo vivo do que é poder fazer algo com recursos zero. Ao fim e ao cabo o reflexo de 25 anos a viver com uma mão à frente e outra atrás sem nunca contar com o trabalho de mais ninguém a não ser com o que se faz semanalmente pelos seus componentes às 2ªs e 4ªs na Sala de Ensaios. É assim a EUC. Grande abraço